Archive for April, 2008

Embora Cuzco seja uma cidade charmosíssima, aconchegante e linda, a verdade é que a razão pela qual 10 entre 10 turistas a visitam é ir até Machu Picchu… ;-)

Há basicamente 2 formas de chegar a Machu Picchu: uma é ir de trem, como eu fui; outra é botar a mochila nas costas e encarar a Trilha Inca, como fez a convidada especial do Idas e Vindas, a querida Eco-mília!!!

Depois dessa breve introdução, deixo vocês entregues ao saboroso relato da Emília – e aposto que muitos, como eu, vão “viajar” longamente aqui na frente da telinha…

Quando decidi fazer a minha viagem ao Peru, em 2003, eu tinha certeza que queria fazer a Trilha Inca. Não tinha muita certeza do que iria encontrar, do nível de dificuldade, mas achava que com um pouco de treino, tudo iria dar certo. Sobre a questão de acampar, experiência nova, também achava que iria me virar bem. Já quanto à altitude…mistério. Poderia me dar muito bem nos 4.000m ou sofrer desesperadamente. Bem, só poderia conferir testando mesmo, então… viagem fechada.

Como a princípio eu iria sozinha, preferi planejar minha viagem com uma agência e lá me deram as dicas de que a trilha não era um bicho papão e que seria um acampamento mordomia. Para garantir, estava indo bem preparada, com um fleece quentinho, anorak e capa de chuva, uma bota confortável, isolante térmico e um sleeping que agüentava bem até -5ºC. Eu tinha tudo isso e mais a ansiedade em começar logo, aumentada por várias horas no ônibus vindo de Cuzco (com direito a muitas paradas nos vilarejos para pegar o pessoal que nos ajudaria na trilha e provisões) e temperada com repetições infinitas numa fita da Sonia Morales :-)

Finalmente, lá pelas duas da tarde paramos no quilômetro 88, onde conhecemos nossos companheiros de viagem: um suíço, um alemão e um português, além do trio brasileiro, que incluía também o Marc e a Natalia (que se juntou à nossa dupla ainda no aeroporto de Guarulhos). Conhecemos nosso guia e os nossos cozinheiros e carregadores, moços rapidíssimos, sempre com um sorriso no rosto. Eles num minuto prepararam nosso almoço e logo depois já estávamos mostrando os nossos passaportes no controle e atravessando o Rio Urubamba para começar a nossa subida.

Este primeiro dia foi fácil, caminhamos ainda em altitudes (relativamente) baixas e somente por uma tarde. Mas já deu um gostinho da paisagem, especialmente quando pudemos ver ao longe Llactapata, o primeiro sítio arqueológico do nosso caminho.

A nossa primeira parada foi logo após o vilarejo de Wayllabamba, a uns 2.800m, no final da tarde. E também a surpresa: todas as barracas arrumadinhas, inclusive a nossa tenda-refeitório. O nosso trabalho foi arrumar os sleepings e relaxar esperando o jantar, que estava ótimo, como todas as refeições. Difícil mesmo foi só me acostumar ao uso da lanterna para explorar o acampamento, mas preferimos dormir cedo mesmo, já que o dia seguinte prometia. 

Acordamos umas 5 e meia, prontos para o trecho mais difícil e temido da trilha: no meio do dia estaríamos a 4.200m em Warmiwañusca, que quer dizer ‘Passo da Mulher Morta’ (deveria ser eu, claro :-) ). Gente… é puxado. Mas possível. Para mim o que facilita é manter um passo não muito acelerado, mas constante, e de preferência não olhar muito para cima :-) Nas primeiras horas, a questão é mais de condicionamento físico mesmo, mas no final… cada passo é um sacrifício imenso e eu tinha que parar a cada cinco deles para tomar fôlego. É impressionante sentir o efeito da altitude no nosso corpo, mas eu não podia reclamar muito: estava bem, sem nenhum efeito do soroche e somente com o chazinho de coca do café da manhã, nem precisei mascar a folha. O que ajuda muito também é a paisagem neste trecho que é maravilhosa…a perfeita desculpa para dar uma paradinha :-)

A sensação lá em cima é incrível, fica todo mundo com cara de bobo, feliz de ter conseguido. A paisagem do outro lado é bem diferente, mais árida, mas lindíssima, com um sítio arqueológico que podia ser visto nas montanhas em frente. Dali, uma descida curta até a parada do almoço e mais descida até o nosso próximo acampamento.

Nossa noite foi ótima, o probleminha foi acordar no dia seguinte com uma chuva constante, que não tinha cara de parar logo. Que remédio…coloquei tudo o que podia no meu corpo e saímos. Passamos por Runkuraqay, aquela construção circular que tínhamos visto antes, um posto de guarda inca, e continuamos… 

Passamos naquela manhã ainda por dois passos, com um altitude mais baixa que a do dia anterior, mas que, mesmo, assim exigiram bastante das pernas. Antes da parada do almoço passamos por mais um sítio arqueológico, Sayaqmarca, mas infelizmente a chuva não permitiu que aproveitássemos bem. Não que ela estivesse tão forte, mas estávamos bem molhados e a temperatura devia estar em uns 10ºC…a visão do refeitório e dos potinhos de sopa quentíssima ajudaram a elevar um pouco o ânimo :-)

Mas a partir daí as coisas ficaram mais difíceis, pelo menos para mim: era a descida. Com a chuva e as escadas de pedra, comecei a firmar mais meu passo para não escorregar, o que me gerou uma dor chatíssima abaixo do joelho. Passamos pelo bonito sítio de Phuyupatamarca e continuei mancando até o final da tarde quando chegamos a Wiñay Wayna, onde fica a única construção da trilha inca: um restaurante e um albergue com poucas camas, para aqueles que não agüentam mais acampar. Não era o nosso caso, mas passamos a noite no restaurante/bar, um lugar divertido, com gente do mundo inteiro reunida para beber uma cervejinha gelada, ouvir música e até dançar um pouco. Só não podíamos ficar até muito tarde porque a hora marcada para acordar era 3 e meia da manhã, para retomar a caminhada.

Para nossa sorte, a chuva tinha parado e a perspectiva de chegar logo a Machu Picchu nos deu um ânimo novo…seguimos pela manhã fresquinha por cerca de duas horas, acompanhando o cânion do Urubamba, até que percebemos a claridade se aproximando e uma subida. No final dela, o Inti Punku – a Porta do Sol – de onde finalmente vimos Machu Picchu com o nascer do sol. Eu nem sei explicar o que senti: alegria de ter conseguido chegar, a beleza de ver a cidade ali embaixo, vazia e calma, as montanhas ao redor… a vontade é de ficar ali por horas. Mas descemos para aproveitar o lugar antes da abertura do principal acesso, para quem vem de Águas Calientes. Estava cansada, mas feliz :-)

Finalmente, cá estamos nós de volta à nossa novelinha!!! :D

Cuzco me pareceu uma cidade semelhante, em vários aspectos, a algumas das nossas cidades históricas no Brasil. Não é apenas pelo fato (óbvio) de que é uma cidade colonial, que guarda traços tanto da dominação estrangeira quanto da resistência indígena, ou que hoje sobrevive do turismo… Não, pra usar a linguagem popular, o buraco aqui é mais embaixo – a bem dizer, estamos falando do nosso amigo, o estômago… ;-)

Como várias das nossas cidades históricas (é só pensar em Tiradentes, Paraty…), Cuzco também se revelou um destino gastronômico bem interessante. Eu não sou muito fã de sair provando comidinhas diferentes, não. Pra dizer a verdade, sou meio chata com algumas coisas, meio fresca com outras, enfim, não sou a melhor fonte de informações sobre comida típica de lugar nenhum…

E no Peru não poderia ser diferente… Um dos pontos altos da culinária local, o cuy, que é um animalzinho pequenininho, tipo um porquinho-da-índia ou uma preá, passou bem longe da minha mesa… e quando passava perto eu fingia que nem era comigo! Pois então eu lá ia ter coragem de comer aquele bichinho assado inteirinho, ainda com jeito e forma de bichinho, e não de comida? Nem pensar… :roll: (Claro, isso já rendeu mil e uma histórias, tipo um ex-namorado que me disse uma vez que não entendia como eu não me incomodava com o sofrimento dos pobres dos gansinhos enquanto saboreava o meu “patêzinho”… E o pior é que eu não penso mesmo, não, tanto que não sou vegetariana, muito pelo contrário!!! Eu só não quero ver… )

Mas, voltando ao assunto, como nem só de comida típica se fazem os bons restaurantes – e, aliás, um destino gastronômico que se preze não pode viver só de comida típica – fizemos algumas visitas a uns restaurantes bem interessantes de Cuzco. E um ponto em comum que me chamou bastante a atenção foi que, mesmo que o restaurante seja internacional, as entradinhas sempre têm pelo menos um pouquinho de cor local… ;-)

Logo no primeiro dia, fomos almoçar no Inka Grill, que fica bem na Plaza de Armas – como aliás, quase todos! A Plaza de Armas é o ponto central de Cuzco, todos os caminhos levam a ela…

Enquanto olhávamos o menu, chegou a nossa entradinha: batatas chips, sim, algo tão comum… Mas batatas de vários tipos diferentes, alguns que eu nem nunca tinha visto (o Peru e a Bolívia produzem mais variedades de milho e batatas do que somos capazes de imaginar, algo assim como 200 tipos diferentes de batatas e 700 de milho!!!) – acompanhadas de um molhinho de ervas muito gostoso e refrescante, porque devia ter hortelã na composição:

Nosso almoço em si foi simples: pedimos um filé de frango grelhado acompanhado de um gnocchi al funghi - era dia 29, né, dia de comer gnocchi com uma nota de um dólar embaixo do prato!!! (29 de julho de 2007, vejam só como essa novelinha tá um atraso só!!!) Não dá água na boca só de olhar? (E eu estou aqui me torturando às 2:30 da tarde sem almoço, só pra não perder a oportunidade de usar a conexão… :roll: )

Atualização: nosso almoço no Inka Grill custou cerca de 22 soles por pessoa = pouco menos de R$15,00! ;-)

Um outro lugar que fez sucesso foi o Mesón de Espaderos, também na Plaza de Armas, claro… Aliás, o único restaurante que experimentamos fora da Plaza de Armas foi um desastre – era uma trattoria até bonitinha, mas uma comida sem graaaaaaça… Mas o Mesón de Espaderos agradou muitíssimo…

- e aqui pedimos um prato típico do Peru, o lomo saltado:

Atualização: E eu me esqueci de anotar quanto gastamos nesse almoço, mas os preços não variavam muito, não…

Na verdade, o lomo saltado fez tanto sucesso com a gente que um outro dia decidimos pedi-lo de novo, mas em outro restaurante, o De Mi Pueblo:

Outro sucesso – uma delícia!!! :D

Atualização: O almoço no De Mi Pueblo custou 25 soles – a cerveja encareceu um pouquinho a conta… Mesmo assim, isso significa algo em torno de R$ 16,00!

Para continuar a lista dos top 5, eu não poderia deixar de incluir o Chez Maggy – são duas filiais desse restaurante tão despretencioso quanto charmoso e aconchegante. E aqui ainda tivemos música ao vivo!

As entradinhas típicas, claro – umas 327 espécies diferentes de amendoins torradinhos…

… mesmo que o pedido principal seja uma pizza!!! ;-)

Atualização: No Chez Maggy gasta-se pouco… Nosso lanche custou 15 soles por pessoas, ou seja, R$ 10,00! :D

E para completar a lista, eu não poderia deixar de botar água na boca de todos com a fabulosa sobremesa do restaurante do Hotel Terra Andina – o helado tempura!!! Pois bem, trata-se de uma daquelas maravilhosas sobremesas que unem o quente ao frio, o crocante ao macio, ou seja, inacreditável!!! E engordativo, claro, mas férias que são férias significam aproveitar, em todos os sentidos!!! :D

Atualização: O helado tempura pode até pesar na dieta, mas no bolso, jamais!!! Apenas 8 soles, ou menos de R$6,00. ;-)

Pessoal, estou atrasada… Ontem, enquanto eu tentava de todas as maneiras fazer a minha conexão funcionar (estou de carona na wireless de algum vizinho, ainda não me livrei da burocracia pra ganhar uma ID pra usar a da universidade), o Idas e Vindas completou 100.000 visitas desde a sua criação, em fevereiro de 2007.

E, não é falsa modéstia, não, gente, mas eu não tenho a menor idéia de como isso aconteceu… ;-) Procuro cuidar da casinha aqui com capricho, mas o bloguito anda mais abandonado do que nunca…

E, para retomar o ritmo da novelinha peruana, vamos então comemorar com uma Cusqueña bem geladinha!!! Assim que eu conseguir um tempinho livre, venho dar uma visão geral dos meus restaurantes favoritos em Cuzco… ;-)