Happy hour cultural

Viajar é uma das minhas maiores paixões; a outra é a literatura. Eu sou uma daquelas criaturas privilegiadas que consegue trabalhar no que ama – e que, embora não seja de jeito nenhum uma viciada em trabalho, nas férias não precisa esquecer que o trabalho existe…

Em todos os lugares onde vou eu gosto de visitar as livrarias. (Bom, também gosto de visitar supermercados…) Prefiro, claro, quando eu sei falar a lí­ngua do paí­s, senão o processo todo de entrar, xeretar e comprar vira uma grande frustração. Mas eu gostei mesmo assim de entrar em livrarias na França (quando não sabia falar francês) e na Itália (e continuo não sabendo italiano…). Me divirto em todas – seja num sebo de proporções monumentais como a Strand de Nova York ou em livrarias meio assépticas como uma Barnes & Noble da vida…

Mas de todas as livrarias em que já entrei, a minha favorita é a El Ateneo Grand Splendid de Buenos Aires. Não é apenas pelos livros – muitas outras livrarias, mesmo em Buenos Aires, tem uma oferta melhor e preços mais atraentes. É pelo espetáculo mesmo!!! A Grand Splendid foi montada em um antigo teatro, e lá todo o cenário colabora para tornar a experiência de visitar uma livraria algo fora do comum.

O teatro ficou sem uso por vários anos e a iniciativa de inaugurar a livraria ali foi uma excelente saída para resgatar um prédio histórico belí­ssimo. Essa saí­da foi usada para resgatar vários outros prédios de Buenos Aires, que normalmente se transformam em shopping centers: as Galerí­as Pací­fico, o Patio Bullrich, o Shopping Abasto, as Terrazas do Buenos Aires Design Center… Vale a pena visitar cada um deles, mesmo para quem não curte as compras em si, mas para procurar os detalhes que lembram que ali funcionava um outro tipo de negócio em outras épocas… O maior charme da Ateneo para mim está em nos lembrar todo o tempo que estamos em um teatro tanto quanto estamos em uma livraria – o passado e o presente acontecem juntos ali.

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O trabalho de restauração foi primoroso – balcões, camarotes e frisas agora abrigam livros e leitores.

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Mas o ponto mais fascinante da livraria é o palco. Não foi uma idéia genial instalar um café no palco? E dar o nome a esse café de Café Impresso também não é fantástico? (Uma vez eu já falei de uma crônica do João Paulo Cuenca sobre o palco da Ateneo – clique aqui.)

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Pois foi no Café Impresso que resolvemos fazer uma happy hour um dia. Por volta das 18:00 h, todos os dias, há música ao vivo. Nesse dia, fizemos um lanche delicioso ao som de um belo piano. E, detalhe: embora os turistas apareçam aos bandos na Ateneo ao longo do dia inteiro, poucos se dão ao luxo de curtir a música sem pressa – a maior parte do público é mesmo local.

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E, diga-se de passagem, eu me ressinto um pouquinho dessa história da Ateneo ter virado ponto turí­stico… Onde já se viu, alguém se sentir obrigado a visitar uma livraria? As pessoas entram, olham ao redor, batem o ponto, riscam o item da listinha, dão meia-volta e depois vão dizer que não viram nada de mais… Não acho visita obrigatória, não – a Ateneo é para os apaixonados!

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Lanchamos um chazinho com tostados mixtos e empanadas. A música é de graça, sem couvert artí­stico. A conta foi cerca de 23 pesos por pessoa.

A Librerí­a Ateneo Grand Splendid fica na Avenida Santa Fe, 1860. As estações de metrô mais próximas são a Pueyrredón e a Callao, ambas da linha D.

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