Cuzco


Para a maioria das pessoas que sofre com o soroche, a viagem de avião de Cuzco para Lima costuma trazer uma boa notícia: o alívio imediato de qualquer sintoma provocado pela altitude. Lima está situada ao nível do mar – e assim pode-se deixar para trás todos os incômodos que caracterizam o mal de altitude, como dores de cabeça e enjôos.  Entretanto, antes que se possa dar as boas-vindas ao conforto da vida ao nível do mar, a altitude de Cuzco ainda causa um pequeno mal-estar ao viajante, por assim dizer, mais apressado…

Antes de prosseguir, tenho que confessar que sou uma viajante meio apressadinha… Não é que eu não curta certos momentos de reflexão, mas eu tenho uma natureza dinâmica e irriquieta, e essa história de ficar sentada vendo a vida passar me deixa definitivamente estressada – coisas do signo de Áries, diriam alguns… ;-) Eu sou uma daquelas pessoas que gostam (de verdade!) de acordar cedo – e, em uma viagem, aproveito esse gosto  para planejar os deslocamentos de uma cidade a outra logo pela manhã, de modo a aproveitar ao máximo o dia na cidade de destino.

A própria altitude de Cuzco, entretanto, me preparou uma armadilha…  É comum que, por causa da altitude, haja nevoeiros pela manhã e o aeroporto permaneça fechado por várias horas. Foi o que nos aconteceu – nosso vôo estava marcado para as 07:55h da manhã, o que nos fez chegar ao aeroporto pouco antes das 07:00h.

O horário original do vôo

O horário original do vôo

Qual não foi a minha surpresa (e a minha decepção!) ao constatar que o vôo só tinha previsão de decolagem para depois do meio-dia!

O horário previsto para a decolagem

O horário previsto para a decolagem

Vale tecer mais alguns elogios à TACA: recebemos não apenas as informações necessárias, mas também ótimos sanduichinhos, água e café. Passageiro da TACA não passa fome, não… :mrgreen:

Constatado o inevitável, que só chegaríamos a Lima à tarde, resolvemos então passear pelo pequeno aeroporto de Cuzco. Passamos algum tempo na livraria, compramos alguns livros e revistas, demos uma olhada nas lojinhas de artesanato e souvenirs e acabei me perguntando se não teria sido uma boa idéia viajar como los peruanitos abajo… ;-)

Meios de transporte alternativos... ;-)

Meio de transporte alternativo... ;-)

Outro dia mesmo eu estava comentando com o Arthur, lá no Agora Vai, como cada viagem acaba sendo diferente da outra, ainda que se vá para o mesmo destino. Muitas vezes é o ponto de vista que muda, outras vezes são pequenas escolhas que somos levados a fazer…

No meu caso, a escolha de roteiro que precisei fazer foi relativa ao Valle Sagrado… Quem entra aqui no blog, mesmo que de vez em quando, já deve ter ouvido a minha ladainha sobre uma hérnia de disco que eu arranjei há uns 3 anos – e sabe que eu sempre preciso me entender com essa minha “companheira de viagem” para que ela fique quietinha e não resolva dar sinal de vida nos momentos menos apropriados…

Pois nós tínhamos resolvido ir ao Valle Sagrado no dia seguinte à ida a Machu Picchu… A intenção foi boa, mas só durou até as ruínas de Pisac… ;-) Em Pisac a “companheira de viagem” começou a reclamar e eu achei melhor ser sensata, abdicar do resto do passeio e voltar a Cuzco para ter um dia mais tranqüilo. Mas ainda bem que o Arthur fez um post super bacana sobre o Valle Sagrado, que vai ajudar bastante àqueles que estão planejando seus roteiros – e a Camila deve postar sobre o Valle também logo, logo.

Minha contribuição aqui se resume, portanto, às ruínas de Pisac… A intenção inicial era visitar o mercado indígena, que só acontece aos domingos, terças e quintas. Chegamos a Cuzco em um domingo, fomos a Machu Picchu em uma terça e seguiríamos para Lima na quinta – ou seja, planejei maaaaaaal… ;-)

Infelizmente, o guia que tivemos nesse passeio não foi muito pródigo em informações… E eu também confesso que já não estava prestando muita atenção… Sugiro que vocês façam o mesmo que eu acabo de fazer: dar uma lidinha básica no verbete da Wikipedia! :lol: (Inseri o link para o verbete em inglês, porque o português tá pobrinho… )

E vamos então ao passeio! Ao chegar a Pisac, o que primeiro atrai o olhar do visitante é a paisagem, o espaço aberto e grandioso:

Para onde se olha há vestígios das construções dos Inca Pisac…

Para chegar às ruínas propriamente ditas, em especial às do Templo do Sol, é preciso dar a volta na montanha e subir pelo outro lado. A trilha é estreitinha e começa suave, depois vai ficando mais puxada, principalmente quando chegamos aos degraus… (Sério que eu achei essa trilha um perigo, lá nas alturas e completamente desprotegida!)

Mas as paisagens ao longo do caminho são belíssimas…

… e a vista da cidadela de Q’allaqasa é de tirar o fôlego:

Chegamos então ao topo! E, apesar do esforço constante para banir a multidão das fotos, dessa vez a alta temporada foi mais poderosa do que a minha habilidade… ;-)

Mas, com um pouquinho mais de paciência, foi possível conseguir algumas fotos quase desertas…

O próximo passo foi nos desgarrarmos do grupo e tomarmos um táxi de volta a Cuzco, onde um saboroso almoço e uma Cusqueña bem geladinha coroaram o esforço… ;-) Minha sugestão, mesmo para aqueles que têm colunas e joelhos perfeitos, é evitar fazer Machu Picchu e o Valle Sagrado em dias consecutivos, se for possível – só pra lembrar o velho ditado, que diz que é melhor prevenir…


Após alguns minutos a bordo do ônibus, fizemos a primeira escala prevista no roteiro do nosso city tour – o Convento de Santo Domingo. Visto por esse ângulo, o Convento de Santo Domingo não difere em nada de tantos outros conventos fundados pelos espanhóis em suas colônias sul-americanas. Santo Domingo, entretanto, guarda uma característica especial – foi construído sobre e ao redor das ruínas de Qoriqancha, o Templo do Sol.

Ao construir seus templos sobre as bases dos templos incas (pois isso não ocorreu apenas em Qoriqancha – outras igrejas de Cuzco também têm bases incas…), os espanhóis pretendiam calar manifestações religiosas nativas e demonstrar a força de sua cultura sobre a cultura indígena. Chega a ser bastante irônico, então, quando se vê que as bases sobre as quais os espanhóis assentaram os seus templos foram construídas segundo uma engenharia bem mais avançada do que a utilizada por eles próprios na época…

Na primeira foto, as pedras se encaixam com perfeição, sem necessidade de qualquer tipo de argamassa; na segunda, se amontoam sem critério e, não fosse pela argamassa, não configurariam nenhum tipo de construção… ;-) Qual é inca e qual é espanhola? As apostas estão abertas…

Nossa segunda parada foi em Sacsayhuaman. Infelizmente minhas fotos não fazem jus à grandiosidade do lugar… (Na verdade, eu fiz um filminho – mas ventava tanto e fazia tanto frio que o tal filminho ficou parecendo um registro amador de um terremoto em Sacsayhuaman… :lol: )

A escala seguinte foi Puka Pukara…

… de onde a vista era linda:

Seguimos então para Tambomachay – mas já começava a escurecer… (Talvez optar pelo city tour de manhã seja mais proveitoso!)

Chegamos por fim a Q’enqo, ainda a tempo de percorrer o interior das cavernas:

Fizemos ainda uma última parada estratégica e pudemos ver o início do anoitecer em Cuzco. Quem diria que a capital Inca é hoje uma cidade tão grande?

Para terminar, sugiro uma visita ao post que o Arthur escreveu sobre esses mesmos sítios arqueológicos, lá no Agora Vai. O texto do Arthur está riquíssimo em informações – e as fotos estão um espetáculo! ;-)

City tour??? Como assim? (Será que consegui adivinhar a reação dos leitores desse blog ao ver a expressão “city tour” aqui em um título de post?) ;-)

Mesmo os que pouco freqüentam essa minha salinha de visitas já devem saber que, se tem uma coisa que eu não gosto quando se fala em viagens, essa coisa é o bendito city tour. Não tenho motivos racionais, não – é só que eu não gosto de ser levada aos lugares, prefiro ir sozinha; e talvez eu seja uma pessoa meio anti-social também (espero que não!), mas não gosto de me enfiar num ônibus com um monte de desconhecidos (ué, mas não tenho nada contra andar de ônibus comum, vai entender… :lol: )

O fato é que o city tour em Cuzco é diferente… Antes de mais nada, o city tour não mostra a cidade em si (eu não disse que era diferente?!?), mas sim os sítios arqueológicos situados na cidade ou bem próximos a ela. Além disso, acho que não haveria modo de chegar a esses sítios por conta própria, muito menos dependendo de transporte público! Assim, o “city tour”, nesse caso, era um mal necessário…

Todas as agências de turismo da Plaza de Armas oferecem não apenas esse passeio, como também outros, como o Valle Sagrado, a Trilha Inca, etc. Os roteiros não costumam variar muito, mas os preços podem, sim, ser bem diferentes entre uma agência e outra. Pesquisando em 2 ou 3, nos decidimos por uma pequena agência na Calle del Comercio, onde o atendimento foi muito simpático e o city tour nos custou 15 soles por pessoa. (Como estou atrasadíssima para contar essa história, que é de praticamente 1 ano atrás, esses preços podem estar completamente defasados…)

Para ingressar nos sítios arqueológicos, o melhor a fazer é comprar um boleto turístico na Oficina de Turismo da Avenida del Sol (Arthur, obrigada pelo link!) . O bilhete dá direito a ingressar em 16 atrações, entre elas as que fazem parte do city tour e do passeio ao Valle Sagrado. O custo é de 70 soles (e apenas 40 para estudantes), e já se pode estrear o bilhete no Museo de Arte Popular, que fica no subsolo do prédio da Municipalidad del Cusco, o mesmo onde está a Oficina de Turismo.

O city tour dura toda uma manhã ou uma tarde. Contratamos o nosso para a tarde do mesmo dia e tínhamos então toda a manhã livre para passear pela cidade.

Começamos por um programinha perto do hotel, o Mercado de Cusco, junto à Iglesia de San Pedro. É um mercado de abastecimento típico, onde as pessoas também vão para tomar o café da manhã ou almoçar (e eu, claro, não tive coragem de provar nada, digamos, “suspeito”…)

Depois embarcamos em um passeio down memory lane - ou seja, pelos caminhos da memória… Explico: eu estava viajando com a minha tia Célia, que já tinha ido a Cuzco em outra ocasião, muitos anos antes. Fomos então tentar encontrar o hotel onde ela e uma amiga tinham se hospedado. Ela se lembrava mais ou menos da localização, na Plaza San Francisco – e não é que conseguimos mesmo encontrar o hotel?

O hotel tem essa linda vista para a Plaza San Francisco. Chegamos também a dar uma espiadinha no átrio:

Seguimos então para o nosso almoço (esse foi o dia do Mesón de Espaderos) e logo no início da tade estávamos a postos na Plaza del Regocijo para embarcar no ônibus e começar o nosso city tour…

Desde o começo do planejamento da viagem – aliás, desde que eu me entendo por gente, e gente que gosta de viajar e queria ir conhecer o Peru – eu sabia que a Trilha Inca não era pra mim… Curiosidade eu tenho, sim – e a Emília, convidada especial do Idas e Vindas no post anterior, ajudou bem a aguçar essa curiosidade… Mas eu me conheço – sempre fui fresca e chata, e depois de arranjar uma hérnia de disco, então, essa aventura não ia dar certo… Assim, eu já fiz os planos trocando a Trilha Inca pelos “trilhos incas”… :lol:

A Peru Rail é a empresa que faz o transporte entre Cuzco e Machu Picchu, assim como de Puno a Cuzco, aliás… Ela pertence ao grupo Orient Express, o que fica bem patente nos trens de luxo que fazem as duas rotas: o Hiram Bingham, de Cuzco a Machu Picchu, e o Andean Explorer, de Puno a Cuzco.

Nota: Nesse post aqui eu dei o passo-a-passo de reserva e compra de bilhetes da Peru Rail.

São 3 tipos de trens turísticos que fazem a ligação entre Cuzco e Machu Picchu (todas as fotos são do site da Peru Rail):

- o Hiram Bingham – um trem de luxo, que ficou só na vontade mesmo; a US$ 588.00 a passagem, acho que nem na próxima encarnação… :P

- o Vistadome – o meu escolhido, um trem panorâmico que tem grandes janelas e boa parte do teto de vidro, para que se aprecie a paisagem; ano passado eu paguei US$ 113.00 ida e volta, mas já vi no site que em 2008 o valor é US$ 142.00 (preços inflacionadíssimos em dólar!!!)

- o Backpacker – o trem convencional, escolhido pela maioria dos turistas que vai a Machu Picchu; para 2008, a tarifa ida e volta é de US$ 96.00.

Há uma boa diferença de preços entre eles, mas a verdade é que não é barato ir a Machu Picchu, seja pela Trilha Inca ou por qualquer dos 3 tipos de trem oferecidos. Claro que o Hiram Bingham é quase uma afronta, mas os outros trens mais “normais” – o Vistadome e o Backpacker – também não são exatamente “baratinhos”… Os preços da atração turística mais famosa do Peru estão completamente fora de qualquer parâmetro praticado no resto do país!

Quando estive lá, em julho de 2007, o meu orçamento foi este:

- Trem Vistadome, Cuzco / Machu Picchu / Cuzco – US$ 113.00;

- Ônibus Aguas Calientes / Machu Picchu / Aguas Calientes – US$ 24.00;

- Ingresso para o Parque Nacional de Machu Picchu, válido por 1 dia – o equivalente a US$ 38.00.

Uma das maiores vantagens que têm aqueles que fazem a Trilha Inca é chegar ao Parque antes que os portões sejam abertos aos turistas; uma forma de aproveitar um pouco dessa calma, mas depois de abertos os portões, claro, é escolher o Vistadome que parte de Cuzco às 6:00 da manhã, que chega a Machu Picchu antes do Backpacker e, portanto, antes da maior parte dos turistas… ;-)

Durante a fase de planejamento, cheguei a pensar em dormir uma noite em Aguas Calientes para voltar a Machu Picchu no dia seguinte. O Bruno Vilaça, em um comentário lá no Viaje na Viagem, me demoveu da idéia com dois ótimos argumentos: primeiro, que só os hóspedes dos hotéis situados dentro do parque podem permanecer lá após o fechamento dos portões, ou seja, adeus pôr-do-sol e nascer do sol na manhã seguinte; segundo, que levando um lanchinho para não precisar sair para almoçar, eu teria tempo mais do que suficiente para percorrer todo o sítio arqueológico. Eu segui a dica, e ela se revelou muito sábia – valeu, Bruno! :D

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