Machu Picchu


Ou: palavras são necessárias? ;-)

A verdade é que a chegada a Machu Picchu é sempre impactante… Imagino que para quem faz a Trilha Inca e vê Machu Picchu pela primeira vez ao nascer do sol seja ainda mais poético, mas o fato é que ninguém está verdadeiramente preparado para se deparar com aquela cidadela no meio das montanhas, escondida até o último minuto… Não dá pra evitar imaginar o que não deve ter sido para Hiram Bingham, o explorador que no início do século XX finalmente revelou ao mundo o segredo inca escondido por tanto tempo, nunca descoberto pelos colonizadores espanhóis…

Infelizmente não tenho aqui comigo as informações que guardei sobre Machu Picchu, e não vou poder ser precisa nem explicar bem as fotos… Mas compartilho com vocês o meu olhar sobre esse tesouro… ;-)

Ao descer do trem, o cenário não é muito animador… Chegamos à cidadezinha de Aguas Calientes, um povoado que vive do turismo a Machu Picchu, e que oferece hospedagem e alimentação à maioria dos turistas, ou seja, aqueles que não pagam mais de US$ 400 a diária para se hospedar dentro do parque… ;-)

A cidadezinha se desenvolveu em torno da linha do trem – aí estão os restaurantes, boa parte dos hotéis, muitas lojinhas e um grande mercado de artesanato:

O nome desse restaurante aí embaixo não é demais? Até quem não é índio fica feliz com a idéia de um bistrô franco-peruano… :lol:

Claro, há também uma igrejinha!

Compramos então nossos bilhetes para o ônibus Aguas Calientes – Machu Picchu, e começamos a nossa jornada montanha acima…

(Gente, sério que não é só pelo prazer do suspense… O tempo anda escasso mesmo pra atualizar o bloguito!) ;-)

Nossa jornada começou bem antes do sol nascer, bem antes de qualquer horário razoável para uma criatura em férias, mas não antes que Cuzco acordasse… Afinal, ela está acostumada – todos os dias um número enorme de turistas deixa o conforto das suas camas quentinhas e toma o rumo da Estação San Pedro, de onde partem os trens para Machu Picchu. A movimentação é tão rotineira que todos os hotéis começam a servir o café da manhã às 05:00, e sempre há táxis rodando pelas ruas da cidade.

No nosso caso, deu tempo até de tomar o café da manhã com calma – ainda bem, porque eu estou sempre faminta de manhã, e detesto sair sem comer… :roll: E nem precisamos de táxi, já que o Terra Andina fica situado a apenas 5 minutinhos a pé da estação. Então lá fomos nós – nem parecia tão cedo, uma multidão se acotovelava na entrada da estação… De repente, que surpresa: havia uma entradinha separada para os passageiros do Vistadome! Não era assim uma primeira classe, mas já valia como um upgrade pra executiva… ;-)

O trem parte às 6:00 da manhã, e a primeira parte da viagem chega a dar vontade de voltar a dormir enquanto o trem desce a montanha… Sim, é preciso descer dos 3.400 m de altitude de Cuzco para seguir para Machu Picchu, já que o caminho passa pelo Valle Sagrado.

Logo depois, porém, a própria paisagem se encarrega de acordar os mais sonolentos… Estávamos então em pleno Valle Sagrado, e a vista do Rio Urubamba é de deslumbrar qualquer um, mesmo àquela hora da manhã… ;-)

A cada nova paisagem eu ficava mais feliz pelos janelões do Vistadome… Mas ainda não estava muito segura de que não teria conseguido fazer algumas fotos semelhantes pelas janelas do Backpacker…

Foi aqui que eu tive a certeza… Essa neve no alto da montanha eu não teria visto através do teto do Backpacker… :lol:

Depois de quase 4 horas de viagem, chegamos bem perto do nosso destino – a cidadezinha de Aguas Calientes. Dali bastaria tomar o ônibus para subir a montanha e teríamos chegado ao ponto alto da nossa viagem…

Desde o começo do planejamento da viagem – aliás, desde que eu me entendo por gente, e gente que gosta de viajar e queria ir conhecer o Peru – eu sabia que a Trilha Inca não era pra mim… Curiosidade eu tenho, sim – e a Emília, convidada especial do Idas e Vindas no post anterior, ajudou bem a aguçar essa curiosidade… Mas eu me conheço – sempre fui fresca e chata, e depois de arranjar uma hérnia de disco, então, essa aventura não ia dar certo… Assim, eu já fiz os planos trocando a Trilha Inca pelos “trilhos incas”… :lol:

A Peru Rail é a empresa que faz o transporte entre Cuzco e Machu Picchu, assim como de Puno a Cuzco, aliás… Ela pertence ao grupo Orient Express, o que fica bem patente nos trens de luxo que fazem as duas rotas: o Hiram Bingham, de Cuzco a Machu Picchu, e o Andean Explorer, de Puno a Cuzco.

Nota: Nesse post aqui eu dei o passo-a-passo de reserva e compra de bilhetes da Peru Rail.

São 3 tipos de trens turísticos que fazem a ligação entre Cuzco e Machu Picchu (todas as fotos são do site da Peru Rail):

- o Hiram Bingham – um trem de luxo, que ficou só na vontade mesmo; a US$ 588.00 a passagem, acho que nem na próxima encarnação… :P

- o Vistadome – o meu escolhido, um trem panorâmico que tem grandes janelas e boa parte do teto de vidro, para que se aprecie a paisagem; ano passado eu paguei US$ 113.00 ida e volta, mas já vi no site que em 2008 o valor é US$ 142.00 (preços inflacionadíssimos em dólar!!!)

- o Backpacker – o trem convencional, escolhido pela maioria dos turistas que vai a Machu Picchu; para 2008, a tarifa ida e volta é de US$ 96.00.

Há uma boa diferença de preços entre eles, mas a verdade é que não é barato ir a Machu Picchu, seja pela Trilha Inca ou por qualquer dos 3 tipos de trem oferecidos. Claro que o Hiram Bingham é quase uma afronta, mas os outros trens mais “normais” – o Vistadome e o Backpacker – também não são exatamente “baratinhos”… Os preços da atração turística mais famosa do Peru estão completamente fora de qualquer parâmetro praticado no resto do país!

Quando estive lá, em julho de 2007, o meu orçamento foi este:

- Trem Vistadome, Cuzco / Machu Picchu / Cuzco – US$ 113.00;

- Ônibus Aguas Calientes / Machu Picchu / Aguas Calientes – US$ 24.00;

- Ingresso para o Parque Nacional de Machu Picchu, válido por 1 dia – o equivalente a US$ 38.00.

Uma das maiores vantagens que têm aqueles que fazem a Trilha Inca é chegar ao Parque antes que os portões sejam abertos aos turistas; uma forma de aproveitar um pouco dessa calma, mas depois de abertos os portões, claro, é escolher o Vistadome que parte de Cuzco às 6:00 da manhã, que chega a Machu Picchu antes do Backpacker e, portanto, antes da maior parte dos turistas… ;-)

Durante a fase de planejamento, cheguei a pensar em dormir uma noite em Aguas Calientes para voltar a Machu Picchu no dia seguinte. O Bruno Vilaça, em um comentário lá no Viaje na Viagem, me demoveu da idéia com dois ótimos argumentos: primeiro, que só os hóspedes dos hotéis situados dentro do parque podem permanecer lá após o fechamento dos portões, ou seja, adeus pôr-do-sol e nascer do sol na manhã seguinte; segundo, que levando um lanchinho para não precisar sair para almoçar, eu teria tempo mais do que suficiente para percorrer todo o sítio arqueológico. Eu segui a dica, e ela se revelou muito sábia – valeu, Bruno! :D

Embora Cuzco seja uma cidade charmosíssima, aconchegante e linda, a verdade é que a razão pela qual 10 entre 10 turistas a visitam é ir até Machu Picchu… ;-)

Há basicamente 2 formas de chegar a Machu Picchu: uma é ir de trem, como eu fui; outra é botar a mochila nas costas e encarar a Trilha Inca, como fez a convidada especial do Idas e Vindas, a querida Eco-mília!!!

Depois dessa breve introdução, deixo vocês entregues ao saboroso relato da Emília – e aposto que muitos, como eu, vão “viajar” longamente aqui na frente da telinha…

Quando decidi fazer a minha viagem ao Peru, em 2003, eu tinha certeza que queria fazer a Trilha Inca. Não tinha muita certeza do que iria encontrar, do nível de dificuldade, mas achava que com um pouco de treino, tudo iria dar certo. Sobre a questão de acampar, experiência nova, também achava que iria me virar bem. Já quanto à altitude…mistério. Poderia me dar muito bem nos 4.000m ou sofrer desesperadamente. Bem, só poderia conferir testando mesmo, então… viagem fechada.

Como a princípio eu iria sozinha, preferi planejar minha viagem com uma agência e lá me deram as dicas de que a trilha não era um bicho papão e que seria um acampamento mordomia. Para garantir, estava indo bem preparada, com um fleece quentinho, anorak e capa de chuva, uma bota confortável, isolante térmico e um sleeping que agüentava bem até -5ºC. Eu tinha tudo isso e mais a ansiedade em começar logo, aumentada por várias horas no ônibus vindo de Cuzco (com direito a muitas paradas nos vilarejos para pegar o pessoal que nos ajudaria na trilha e provisões) e temperada com repetições infinitas numa fita da Sonia Morales :-)

Finalmente, lá pelas duas da tarde paramos no quilômetro 88, onde conhecemos nossos companheiros de viagem: um suíço, um alemão e um português, além do trio brasileiro, que incluía também o Marc e a Natalia (que se juntou à nossa dupla ainda no aeroporto de Guarulhos). Conhecemos nosso guia e os nossos cozinheiros e carregadores, moços rapidíssimos, sempre com um sorriso no rosto. Eles num minuto prepararam nosso almoço e logo depois já estávamos mostrando os nossos passaportes no controle e atravessando o Rio Urubamba para começar a nossa subida.

Este primeiro dia foi fácil, caminhamos ainda em altitudes (relativamente) baixas e somente por uma tarde. Mas já deu um gostinho da paisagem, especialmente quando pudemos ver ao longe Llactapata, o primeiro sítio arqueológico do nosso caminho.

A nossa primeira parada foi logo após o vilarejo de Wayllabamba, a uns 2.800m, no final da tarde. E também a surpresa: todas as barracas arrumadinhas, inclusive a nossa tenda-refeitório. O nosso trabalho foi arrumar os sleepings e relaxar esperando o jantar, que estava ótimo, como todas as refeições. Difícil mesmo foi só me acostumar ao uso da lanterna para explorar o acampamento, mas preferimos dormir cedo mesmo, já que o dia seguinte prometia. 

Acordamos umas 5 e meia, prontos para o trecho mais difícil e temido da trilha: no meio do dia estaríamos a 4.200m em Warmiwañusca, que quer dizer ‘Passo da Mulher Morta’ (deveria ser eu, claro :-) ). Gente… é puxado. Mas possível. Para mim o que facilita é manter um passo não muito acelerado, mas constante, e de preferência não olhar muito para cima :-) Nas primeiras horas, a questão é mais de condicionamento físico mesmo, mas no final… cada passo é um sacrifício imenso e eu tinha que parar a cada cinco deles para tomar fôlego. É impressionante sentir o efeito da altitude no nosso corpo, mas eu não podia reclamar muito: estava bem, sem nenhum efeito do soroche e somente com o chazinho de coca do café da manhã, nem precisei mascar a folha. O que ajuda muito também é a paisagem neste trecho que é maravilhosa…a perfeita desculpa para dar uma paradinha :-)

A sensação lá em cima é incrível, fica todo mundo com cara de bobo, feliz de ter conseguido. A paisagem do outro lado é bem diferente, mais árida, mas lindíssima, com um sítio arqueológico que podia ser visto nas montanhas em frente. Dali, uma descida curta até a parada do almoço e mais descida até o nosso próximo acampamento.

Nossa noite foi ótima, o probleminha foi acordar no dia seguinte com uma chuva constante, que não tinha cara de parar logo. Que remédio…coloquei tudo o que podia no meu corpo e saímos. Passamos por Runkuraqay, aquela construção circular que tínhamos visto antes, um posto de guarda inca, e continuamos… 

Passamos naquela manhã ainda por dois passos, com um altitude mais baixa que a do dia anterior, mas que, mesmo, assim exigiram bastante das pernas. Antes da parada do almoço passamos por mais um sítio arqueológico, Sayaqmarca, mas infelizmente a chuva não permitiu que aproveitássemos bem. Não que ela estivesse tão forte, mas estávamos bem molhados e a temperatura devia estar em uns 10ºC…a visão do refeitório e dos potinhos de sopa quentíssima ajudaram a elevar um pouco o ânimo :-)

Mas a partir daí as coisas ficaram mais difíceis, pelo menos para mim: era a descida. Com a chuva e as escadas de pedra, comecei a firmar mais meu passo para não escorregar, o que me gerou uma dor chatíssima abaixo do joelho. Passamos pelo bonito sítio de Phuyupatamarca e continuei mancando até o final da tarde quando chegamos a Wiñay Wayna, onde fica a única construção da trilha inca: um restaurante e um albergue com poucas camas, para aqueles que não agüentam mais acampar. Não era o nosso caso, mas passamos a noite no restaurante/bar, um lugar divertido, com gente do mundo inteiro reunida para beber uma cervejinha gelada, ouvir música e até dançar um pouco. Só não podíamos ficar até muito tarde porque a hora marcada para acordar era 3 e meia da manhã, para retomar a caminhada.

Para nossa sorte, a chuva tinha parado e a perspectiva de chegar logo a Machu Picchu nos deu um ânimo novo…seguimos pela manhã fresquinha por cerca de duas horas, acompanhando o cânion do Urubamba, até que percebemos a claridade se aproximando e uma subida. No final dela, o Inti Punku – a Porta do Sol – de onde finalmente vimos Machu Picchu com o nascer do sol. Eu nem sei explicar o que senti: alegria de ter conseguido chegar, a beleza de ver a cidade ali embaixo, vazia e calma, as montanhas ao redor… a vontade é de ficar ali por horas. Mas descemos para aproveitar o lugar antes da abertura do principal acesso, para quem vem de Águas Calientes. Estava cansada, mas feliz :-)